Lembro como ontem de quando vi (há quase 10 anos), sentada na mesa do meu bar preferido, a negra mais linda que já vi.
Talvez ela não fosse necessariamente a melhor da megalópole, mas sorria de um jeito leve, bebia goles suaves e sorria... Sorria como se o mundo não importasse.
Sorria como se o agora fosse a única coisa que existisse.
Tinha a cabeça raspada, usava uma sombra verde perolada e um par de brincos de argola. Não me lembro o que vestia.
Eu queria aquilo.
Queria saber como era não se preocupar com o que mais indica a feminilidade de uma mulher, queria poder afirmar o que pra sempre foi complicado pra mim.
Mais do que isso, queria saber como era lidar com as coisas de um jeito simples. Queria saber como era não se preocupar durante o crescimento, no amanhã ou depois...
No segundo ano da faculdade decidi que um dia rasparia a cabeça também. Não que eu quisesse imitá-la, mas sempre tive a sensação de que seria algo importante. Fora dos clichês de "uma nova vida" ou coisas do tipo.
Posterguei por tempos.
Quando um agitador cultural decidiu raspar, brinquei que rasparia também.
Mas não era o momento. Eu não tinha coragem suficiente, parecia que não era a hora.
Mas não era o momento. Eu não tinha coragem suficiente, parecia que não era a hora.
Quando uma amiga raspou, combinei que se tomasse coragem...
Bem, também não era a hora. Era um momento dela.
Bem, também não era a hora. Era um momento dela.
Ela sim atribui ao corte todo um ritual que é único. Que não é meu. Não era justo.
Passaram-se meses até chegar a hora.
A hora em que eu me senti de novo completa: parte do meu todo.
A hora em que não tinha mais medo, nem receio. A hora em que o tipo de Inception "cabelo cresce/tudo se ajeita" definitivamente foi plantada como ideia.
A hora em que não era mais necessário nenhum tipo de anulação...
Me perguntaram se foi um rito. Foi.
Tinha dia específico. Tinha lugar e pessoas destinadas.
O dia em que pude celebrar tudo o que passei. O lugar aonde sempre fui bem acolhida. As mãos de quem sempre me viu como eu queria que me vissem. As mãos de quem já me amou, me odiou, levantou o copo de limpeza suspeita para o brinde e dançou comigo nos dias mais amargos e ensolarados.
Me perguntaram se o rito foi de passagem. Não.
Eu não passei. A ideia é continuar.
Eu não passei. A ideia é continuar.
Me perguntaram se "ano novo, vida nova"...
Se vida nova não tiver nada a ver com a primeira vez que senti o vento, a primeira chuveirada pós-corte, o mar que lava e tempera a pele, então não.
Se vida nova for aquela em que tenho que reconstruir minhas bases, eu passo a vez.
Se vida nova não tiver nada a ver com a primeira vez que senti o vento, a primeira chuveirada pós-corte, o mar que lava e tempera a pele, então não.
Se vida nova for aquela em que tenho que reconstruir minhas bases, eu passo a vez.
Me perguntaram se "ano novo, vida nova"...
A vida é a mesma. A gente aprende isso: a vida e as pessoas são todas as mesmas.
O que muda são as percepções que esse pacote Melitta chamado vida filtra.










