17 fevereiro 2013

asa

Minha mãe dizia que eu precisava cuidar muito bem de tudo o que eu gostasse durante a vida. Eu tentei. Minha primeira frustração foi aquele bendito pássaro. Não me lembro qual era o seu "tipo", apenas que era cinza amarelado.

Não tínhamos jardim em casa, era apenas um pequeno canteiro nas laterais do nosso quintal. A vegetação nativa consistia em alguns pés de couve, uma roseira branca, uma vermelha, capim-santo e aqueles trevinhos azedinhos com três folhas.

Um dia, nesse quintal, meu pai fez com que eu aprendesse sozinho a arrumar a corrente da bicicleta. Convenceu minha mãe "Eu lavo essas roupas, mas ele tem que aprender..." e assim meio desengonçado consegui terminar o trabalho que me foi dado. No meio do processo todo, o bendito do pássaro apareceu, melhor dizendo, caiu no meu quintal.

Primeiro pensei em gritar, mas antes disso me contive e cheguei um pouco mais perto.
Deveria medir mais ou menos um palmo, estava assustado. Me olhava piscando muito, respirava com rapidez e se eu forçasse um pouco a vista, talvez conseguisse enxergar o movimento dos batimentos dentro daquela penugem.
"Cuide bem dele!" minha mãe disse. Era uma questão de honra, eu seria o seu herói, estava decidido.

No decorrer dos dias, fomos nos acertando. Eu acordava, conferia o ferimento, deixava água e comida bem pertinho para que ele pudesse ficar quieto com tranquilidade até o meu regresso.

Depois de alguns dias, eu pensava que já éramos amigos, confidentes. Não queria mais andar de bicicleta, ficar muito tempo longe dele. Conversava muito com ele e parecia até que havia um entendimento. Uma vez contei um caso que aconteceu na escola e tenho certeza de que aquele "piiiiiu piu piu piu" foi uma gargalhada.

Seu aspecto só melhorava, aos poucos foi ficando robusto, lindo, menos acinzentado e éramos praticamente cúmplices dentro de todo esse reino animal. Até o dia em que cheguei e ele não estava mais lá.

Primeiro pensei em gritar, mas antes disso fui conversar com aquela que fora a culpada de tudo isso. "Não foi você que pediu pra eu dedicar a minha vida para cuidar daquele pássaro?", falei engolindo o choro que mais parecia uma bola de fogo.
Com o maior dos sorrisos ela me disse que não foi bem assim, era pra eu cuidar de tudo o que eu gostasse durante a vida e agora, precisava entender que isso não faz com que tenhamos o controle sobre as coisas. E ainda mais, era preciso fazer sem esperar resultados.

Eu precisava esquecer toda essa história, pensar com lucidez e limpar o coração para tudo o que estava por vir, para o resto da minha vida.
"Não quero esquecer, não quero crescer, não quero mais nada." E ela dizia que aquele seria apenas o começo.



02 fevereiro 2013

tentativas

Comecei seis posts, nenhum vingou.
Cada um falava de uma agonia, um assunto, uma vontade que vem me acompanhando dia após dia. Depois de seis tentativas decidi que nada disso deve ser escrito: devem ser digeridos. Nenhum deles pareceu um conto, muito menos um desabafo, pareciam palavras soltas que se perderiam depois do post.

Já comentei com alguém ou já escrevi por aqui: os sábados são bem mais perigosos que os domingos.