23 fevereiro 2014

72h

Numa segunda-feira dessas estranhas, retornei.
Aquela depressão pós regresso, aquela sensação de que não pertenço mais a esta cidade cinza... Numa segunda-feira, comecei.

Ela apareceu num horário incomum.
Entrou sem falar nada, demorou alguns minutos pelos cômodos até então obscuros (e desconhecidos por mim) e só então apareceu.
Num breve bom dia geral, veio em minha direção como um míssil.

"Olá, prazer. Seja bem-vindo!" numa simpatia mecânica mas aparentemente natural e um sorriso idêntico ao que conhecemos como ":)" no rosto.

Desde então tentei alguns contatos mínimos sem sucesso. Parecia ser gente boa.
Gostava de fazer com que as pessoas dessem risada, falava de assuntos que me interessavam e tinha um gosto peculiarmente parecido com o meu.

Na maioria do tempo estava calada. Seus movimentos diários consistiam em: desfilar pelo lugar. Eram os meus preferidos. Mas enquanto estava sentada, balbuciava alguma música do fone, fazia uma dança discreta ou ria. Isso era comum, sempre gargalhava sozinha.

Falava comigo com certa indiferença e nem notava que eu sempre mostrava dois dentes a mais enquanto conversávamos. Parecia imune a minha presença.

No aniversário, recebeu meu parabéns como o daquele parente distante. Nas reuniões ria das minhas piadas como as pessoas de sitcom. Acatava meus pedidos como se estivesse trabalhando numa padaria: ouvia, pesava e entregava o pedido num saquinho. Só.
Durante quanto tempo? Não melembro, foram meses.

Um dia, respondeu o e-mail geral fazendo referência de uma gracinha que eu havia feito.
No outro, indiquei um vídeo. Forcei um interesse num assunto que ela sempre comentava. A partir daí, passei a ter um nome pelo menos, quase que tarde demais.

Estava sufocado e decidido (há tempos) a dar meia volta pelo cinza novamente.
Não podia mais perder tempo.

Em uma dessas conversas rotineiras, arrisquei um convite recusado no ato: tinha uma festa, que segundo ela, era tradicional de uma amiga.
Numa segunda vez, arrisquei um convite mais discreto e aparentemente inofensivo que também veio com uma recusa de pronta entrega.


Resolvi avisar sobre a minha partida, e foi nesse momento que ganhei: nome, altura, peso e um belo sorriso. Talvez se eu soubesse disso, teria antecipado a notícia.


- 72 hours left -

Apareceu no horário combinado sorrindo de um jeito diferente. Era uma mistura de "Eu não acredito" com alguma bebida. Mas seguimos como se o caminho fosse o mais natural do mundo.
Como se me conhecesse de longa data, chegou, sentou, falou e aceitou a taça que ofereci.



Parecia não se importar muito com tudo aquilo e fazia com que eu me confundisse sobre sua intenção e a compreensão da minha. 
Seguimos.

Chovia, ventava, nenhum rolê dava certo.
Tinha hora exata pra voltar e mais uns 28 compromissos de domingo. Como quem não tem nada a perder desceu do carro e com uma das mãos me puxou pela nuca. Agora estávamos no mesmo barco.


- 48 hours left - 

Do mesmo modo de sempre, chegou como se nada tivesse acontecido.
Como se não tívessemos conversado e rido sobre a situação e colocado enfim todos os talheres na mesa... Mas evitava contatos diretos.

- 12 hours left -

Apareceu com a camisa que eu havia elogiado algumas vezes e eu sabia que foi de propósito.
Se despediu de mim de modo convincente. "Tchauzinho, tudo de bom pra você. Boa sorte!" e saiu.

A encontrei no metrô e num impulso, a levantei pela cintura. Estava livre. Estava livre do cinza e poderia enfim correr atrás do sonho que construi por mais de 10 meses.

Me levou num bar, em que lhe entreguei um presente. Foleando página por página, entendeu os recados ocultos mas não me perguntou nada. Fez um comentário certeiro citando um caso e silenciosamente nos acertamos assim.
Me ensinou a dançar, disse que entrei para o clube "punk samba rock" e marcou no meu pescoço: 72h.




Sabíamos que não nos veríamos de novo então fomos embora pelo caminho mais longo.
Emendando todas as conversas non sense e relembrando os pontos principais da despedida, chegamos ao destino. Olhou novamente o "72h" e não falou mais nada.
Foi difícil o beijo na testa de quem é alguns centímetros maior que eu, ao contrário do abraço, que parecia ser feito sob encomenda.


- 00 hours left -

Sentamos no último banco do vagão com duas senhoras do lado.
Mesmo sendo aloprado, tentei protegê-la como pude, mas sabíamos que seria em vão.
Beijei uma das lágrimas que escorriam vazias de promessas ou intenções futuras e a vi desfilando pela última vez.