Quando chegou, sua cabeça estava oca. Muita coisa junta, sono, cansaço e energias gastas no corre corre de sempre. Era como se a mente estivesse acabado com todo o estoque de pensamentos que pudessem existir.
Era sua quarta ida ao Rio, seus amigos viajados não entendem essa paixão, nem ela. Talvez seja decorrente de um plano futuro e toda vez que está por lá, o cérebro injeta um placebo de "Tudo vai ficar bem!" na mente. A primeira ida foi recheada de passeios turísticos e um choro, um choro que dizia "Vai!".
Fazer as coisas sozinha sempre foi seu forte. Andar pelas ruas de São Paulo pequena, pegar ônibus diferentes para conhecer novos lugares nem que fosse através dos vidros riscados. Shows, cinemas, compras, restaurantes… Até amar sozinha, meio que sem querer, era uma capacidade que com certeza foi desenvolvida. Mas viajar com certeza está na lista de pedileções.
Havia um toque febril em tudo isso que tentava deixar de lado. Notou que estava estranha quando sentou então só fechou os olhos e ficou atenta ao ambiente. Era cedo, os ruídos da cozinha se misturavam com as moto táxi da ladeira, passantes e chinelos arrastados. Estava indecisa sobre o que fazer a tarde e pensando, ainda de olhos fechados, dormiu.
Acordou e notou que havia alguém fazendo o mesmo no sofá ao lado. Pegou o celular e avisou a quem pudesse interessar que não gastaria muitas forças, a programação seria: ficar esparramada na praia até a hora que conseguisse.
Subitamente, uma conversa muito inusitada começou. Eram conselhos misturados com discussões sobre racismo, depressão, feminismo, américa latina, música, o hiato dos textos… Falaram também como é triste ver alguém jovem sofrer de uma doença grave (só essa conversa renderia outro texto). Não que os velhinhos tenham licença poética para adoecerem, mas o sentimento de que não parece justo sofrer (mais) quando jovem é inevitável.
Caminharam para a praia.
Sentados na areia comentaram como era assustador o nascimento de uma afinidade em poucas horas. Cada um comentou como toda aquela conversa parecia agregar um outro sentido às angústias, mesmo que não ditas. Por um lado a admiração de ver uma mulher determinada em permanecer em paz, viajar e também acolher um estranho com sinceridade.
Por outro, o baque de como é conviver ao lado da esclerose múltipla tão jovem e fazer disso o estopim para as próprias realizações. Esclarecer todas as oscilações de humor e obrigar-se a atravessar a depressão de uma vida frágil. Atravessar diariamente por uma ponte feita sob as incertezas entre amanhecer ou desaparecer no dia seguinte.
Foram algumas horas de risadas até que aparecesse a criadora da preocupação que encadeou toda a conversa dos conselhos. Era aquele padrão de beleza sem novidades: latina, branca bronzeada, alta e com as curvas que todo mundo costuma gostar.
- Did u see her? OMG, she's so pretty!
- Yeees! Pretty Woman... (cantanto e rindo)
- Wow wow wow, are u joking?
- Nooo! I'm just saying' that she's pretty. Not "OMG the mooooost beautiful one that I've ever seen" in my life buuuut….
- Wait! Are u tellin' that I have a common taste?
- OMG, the girl is pretty! Stop the drama.
- U'r fucking pretty, as a model or stuff... And awesome person too! You could just say "Ok, she is the white beauty that I'm already used to see!"
- So if u got it, why u have to be so dramaaaaatic?
- Because I'd like to hear u talkin' about this! I already can see that u talk as hell!
- Shut the fuck up!
Juntos conversaram sobre trivialidades. Brasil, Chile, Argentina, carnaval, etc. até que avisou estar indo embora. Disse para não ficar preocupada, que era normal não querer mais as coisas num determinado momento e que se ela quisesse continuar na praia, tudo bem.
Sempre foi difícil lidar com este tipo de situação, mas uma coisa que a vida trouxe foi a paciência em saber abrir espaço. Deixar que as coisas se resolvessem, mesmo que sofrendo, até o contato direto.
Um de seus maiores medos era forçar sem querer a travessia de qualquer linha alheia. Nunca soube lidar com rejeições direito mas definitivamente não poderia sobreviver com a sensação de não ser bem-vinda. "Deixou" que fosse embora sozinho. Pediu que se cuidasse e se despediu.
Permaneceu na areia com aquelas outras pessoas até que
BRANCO.
No dia seguinte retornou a todos os amigos que estavam preocupados com ela, entregou a canga que não era sua na recepção e fez o check-out planejando cumprir a promessa sobre o hiato.
