Minha mãe dizia que eu precisava cuidar muito bem de tudo o que eu gostasse durante a vida. Eu tentei. Minha primeira frustração foi aquele bendito pássaro. Não me lembro qual era o seu "tipo", apenas que era cinza amarelado.
Não tínhamos jardim em casa, era apenas um pequeno canteiro nas laterais do nosso quintal. A vegetação nativa consistia em alguns pés de couve, uma roseira branca, uma vermelha, capim-santo e aqueles trevinhos azedinhos com três folhas.
Um dia, nesse quintal, meu pai fez com que eu aprendesse sozinho a arrumar a corrente da bicicleta. Convenceu minha mãe "Eu lavo essas roupas, mas ele tem que aprender..." e assim meio desengonçado consegui terminar o trabalho que me foi dado. No meio do processo todo, o bendito do pássaro apareceu, melhor dizendo, caiu no meu quintal.
Primeiro pensei em gritar, mas antes disso me contive e cheguei um pouco mais perto.
Deveria medir mais ou menos um palmo, estava assustado. Me olhava piscando muito, respirava com rapidez e se eu forçasse um pouco a vista, talvez conseguisse enxergar o movimento dos batimentos dentro daquela penugem.
"Cuide bem dele!" minha mãe disse. Era uma questão de honra, eu seria o seu herói, estava decidido.
No decorrer dos dias, fomos nos acertando. Eu acordava, conferia o ferimento, deixava água e comida bem pertinho para que ele pudesse ficar quieto com tranquilidade até o meu regresso.
Depois de alguns dias, eu pensava que já éramos amigos, confidentes. Não queria mais andar de bicicleta, ficar muito tempo longe dele. Conversava muito com ele e parecia até que havia um entendimento. Uma vez contei um caso que aconteceu na escola e tenho certeza de que aquele "piiiiiu piu piu piu" foi uma gargalhada.
Seu aspecto só melhorava, aos poucos foi ficando robusto, lindo, menos acinzentado e éramos praticamente cúmplices dentro de todo esse reino animal. Até o dia em que cheguei e ele não estava mais lá.
Primeiro pensei em gritar, mas antes disso fui conversar com aquela que fora a culpada de tudo isso. "Não foi você que pediu pra eu dedicar a minha vida para cuidar daquele pássaro?", falei engolindo o choro que mais parecia uma bola de fogo.
Com o maior dos sorrisos ela me disse que não foi bem assim, era pra eu cuidar de tudo o que eu gostasse durante a vida e agora, precisava entender que isso não faz com que tenhamos o controle sobre as coisas. E ainda mais, era preciso fazer sem esperar resultados.
Eu precisava esquecer toda essa história, pensar com lucidez e limpar o coração para tudo o que estava por vir, para o resto da minha vida.
"Não quero esquecer, não quero crescer, não quero mais nada." E ela dizia que aquele seria apenas o começo.

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