15 junho 2013

eis então que um dia acordou e não sabia seu próprio nome.
habituou-se a criar tantas possibilidades que poderia muito bem negar seu nome de batismo. não seria mais pedro: seria césar, breno, igor...

não sabe dizer ao certo quando começou com isso, mas percebeu que as coisas estavam fora de controle. naquela noite ao voltar pra casa, imaginou exatas trezentas e setenta e nove possibilidades para um mesmo acontecimento. juntava peças, fatos, atos e impressões e dentro deste repertório, fazia combinações exatas.

sairia de casa sozinho, iria ao cinema sozinho, voltaria pra casa e dormiria sozinho.
iria ao cinema sozinho, encontraria um rapaz por lá com os ingressos esgotados, voltaria pra casa acompanhado e dormiria sozinho, ou acompanhado. quem sabe.
iria ao cinema acompanhado por um rapaz, voltaria pra casa sozinho e dormiria sozinho.
iria ao cinema acompanhado por uma moça, voltaria pra casa acompanhado, dormiria acompanhado e acordaria leve por ter colocado um peso no passado.
sairia de casa vagando para tomar uma cerveja, voltaria pra casa pra ver um filme qualquer no computador e dormiria.
apenas dormiria.

acordou.

olhou para o lado e não sabia se o que via era exatamente realidade ou se o seu imaginário estava mais traiçoeiro que o normal.

levantou, escovou os dentes, sentou na varanda e fumou um cigarro. a sua volta, não reconhecia a própria casa. fumando, não reconhecia seus próprios dedos. era como se uma pessoa alheia fizesse o movimento do trago. o que aconteceu?

colocou o chinelo e foi andar um pouco na rua. aos poucos foi reconhecendo o lugar. só estranhou que a cada bom dia, o vizinho dizia joão, o dono do bar césar, a da bomboniere breno e o padeiro, igor.

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