31 maio 2013

nunca teve o paladar para vinhos.
quando jovem, entornava o tipo "tinto suave" que na verdade era uma mistura ingrata de melado com álcool. misturava com leite condensado no ponto de ônibus, colocava na mochila e a fermentação seria ingerida na região central da cidade em que vivia.
quantos anos tinha? quatorze anos no máximo. nunca teve paladar para vinhos.

num dia desses, feriado santo diga-se de passagem, recebeu algumas ligações enquanto se recuperava na noite anterior (noite essa em que a "nata", o "soborô", os "tru" estariam reunidos falando, se atropelando de um jeito engraçado e se exaltando por pixação).
seria o reencontro efetivo de pessoas diferentemente parecidas, parecidamente diferentes, opostas, complementares. que seja, foram misturadas pelo acaso.

juntariam as conversas num charmoso bistrô da periferia. lugar que tem parte significativa na vida de cada um. o morador local, de modo rotineiro; a visita ilustre, de modo nostalgico; e por fim a visita local, em que o significado foi marcado pelo fim/começo de uma nova era há alguns anos atrás.

inverno gostoso, lugar agradável a pedida era um vinho com algum nome estranho.
dois que estavam ali discutiram rapidamente o que seria escolhido, qual era seu tipo, sua uva e o acompanhamento.

nunca teve paladar para vinhos, não entendia aqueles nomes. só sabia o que era suave e seco, quer dizer, pensava que sabia. essa foi sua primeira gafe: vinhos suaves não são necessariamente doces.

"peça um vinho doce, não suave."

guardou essa informação e acatou, mas não deixaria de provar os outros também.

lembra nitidamente como detestava cerveja e hoje em dia, consegue listar em uma mão as suas preferidas. resolveu encarar o tal do vinho, sabe-se lá o nome, a uva, a safra, o que for...

o amargor da bebida misturado ao estado em que já se encontrava, num primeiro momento pareceu uma combinação impossível. intercalava com a água sem gás vez ou outra mas foi a chegada dos queijos, caldos e afins que transformou toda a experiência.

naquela mesa havia a nostalgia de outros encontros, uma pequena muda de roupas para ser lavada naquela noite e uma quantidade grande de mágoas que não deveriam, em hipótese alguma, ser mencionadas.

tudo foi tomando um rumo agradável, as risadas, as brincadeiras. aos poucos. nenhum assunto com o terceiro grau de queimadura foi abordado. "Graças a Deus! pensou repetidas vezes.

a reunião se prolongou, atravessou avenidas, cortou pizzas, cervejas, salas...
nunca teve paladar para vinhos, mas a partir de agora, era quase um sommelier.

(até parece)

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