Quando chegou, sua cabeça estava oca. Muita coisa junta, sono, cansaço e energias gastas no corre corre de sempre. Era como se a mente estivesse acabado com todo o estoque de pensamentos que pudessem existir.
Era sua quarta ida ao Rio, seus amigos viajados não entendem essa paixão, nem ela. Talvez seja decorrente de um plano futuro e toda vez que está por lá, o cérebro injeta um placebo de "Tudo vai ficar bem!" na mente. A primeira ida foi recheada de passeios turísticos e um choro, um choro que dizia "Vai!".
Fazer as coisas sozinha sempre foi seu forte. Andar pelas ruas de São Paulo pequena, pegar ônibus diferentes para conhecer novos lugares nem que fosse através dos vidros riscados. Shows, cinemas, compras, restaurantes… Até amar sozinha, meio que sem querer, era uma capacidade que com certeza foi desenvolvida. Mas viajar com certeza está na lista de pedileções.
Havia um toque febril em tudo isso que tentava deixar de lado. Notou que estava estranha quando sentou então só fechou os olhos e ficou atenta ao ambiente. Era cedo, os ruídos da cozinha se misturavam com as moto táxi da ladeira, passantes e chinelos arrastados. Estava indecisa sobre o que fazer a tarde e pensando, ainda de olhos fechados, dormiu.
Acordou e notou que havia alguém fazendo o mesmo no sofá ao lado. Pegou o celular e avisou a quem pudesse interessar que não gastaria muitas forças, a programação seria: ficar esparramada na praia até a hora que conseguisse.
Subitamente, uma conversa muito inusitada começou. Eram conselhos misturados com discussões sobre racismo, depressão, feminismo, américa latina, música, o hiato dos textos… Falaram também como é triste ver alguém jovem sofrer de uma doença grave (só essa conversa renderia outro texto). Não que os velhinhos tenham licença poética para adoecerem, mas o sentimento de que não parece justo sofrer (mais) quando jovem é inevitável.
Caminharam para a praia.
Sentados na areia comentaram como era assustador o nascimento de uma afinidade em poucas horas. Cada um comentou como toda aquela conversa parecia agregar um outro sentido às angústias, mesmo que não ditas. Por um lado a admiração de ver uma mulher determinada em permanecer em paz, viajar e também acolher um estranho com sinceridade.
Por outro, o baque de como é conviver ao lado da esclerose múltipla tão jovem e fazer disso o estopim para as próprias realizações. Esclarecer todas as oscilações de humor e obrigar-se a atravessar a depressão de uma vida frágil. Atravessar diariamente por uma ponte feita sob as incertezas entre amanhecer ou desaparecer no dia seguinte.
Foram algumas horas de risadas até que aparecesse a criadora da preocupação que encadeou toda a conversa dos conselhos. Era aquele padrão de beleza sem novidades: latina, branca bronzeada, alta e com as curvas que todo mundo costuma gostar.
- Did u see her? OMG, she's so pretty!
- Yeees! Pretty Woman... (cantanto e rindo)
- Wow wow wow, are u joking?
- Nooo! I'm just saying' that she's pretty. Not "OMG the mooooost beautiful one that I've ever seen" in my life buuuut….
- Wait! Are u tellin' that I have a common taste?
- OMG, the girl is pretty! Stop the drama.
- U'r fucking pretty, as a model or stuff... And awesome person too! You could just say "Ok, she is the white beauty that I'm already used to see!"
- So if u got it, why u have to be so dramaaaaatic?
- Because I'd like to hear u talkin' about this! I already can see that u talk as hell!
- Shut the fuck up!
Juntos conversaram sobre trivialidades. Brasil, Chile, Argentina, carnaval, etc. até que avisou estar indo embora. Disse para não ficar preocupada, que era normal não querer mais as coisas num determinado momento e que se ela quisesse continuar na praia, tudo bem.
Sempre foi difícil lidar com este tipo de situação, mas uma coisa que a vida trouxe foi a paciência em saber abrir espaço. Deixar que as coisas se resolvessem, mesmo que sofrendo, até o contato direto.
Um de seus maiores medos era forçar sem querer a travessia de qualquer linha alheia. Nunca soube lidar com rejeições direito mas definitivamente não poderia sobreviver com a sensação de não ser bem-vinda. "Deixou" que fosse embora sozinho. Pediu que se cuidasse e se despediu.
Permaneceu na areia com aquelas outras pessoas até que
BRANCO.
No dia seguinte retornou a todos os amigos que estavam preocupados com ela, entregou a canga que não era sua na recepção e fez o check-out planejando cumprir a promessa sobre o hiato.
10 fevereiro 2016
23 fevereiro 2014
72h
Numa segunda-feira dessas estranhas, retornei.
Aquela depressão pós regresso, aquela sensação de que não pertenço mais a esta cidade cinza... Numa segunda-feira, comecei.
Ela apareceu num horário incomum.
Entrou sem falar nada, demorou alguns minutos pelos cômodos até então obscuros (e desconhecidos por mim) e só então apareceu.
Num breve bom dia geral, veio em minha direção como um míssil.
"Olá, prazer. Seja bem-vindo!" numa simpatia mecânica mas aparentemente natural e um sorriso idêntico ao que conhecemos como ":)" no rosto.
Desde então tentei alguns contatos mínimos sem sucesso. Parecia ser gente boa.
Gostava de fazer com que as pessoas dessem risada, falava de assuntos que me interessavam e tinha um gosto peculiarmente parecido com o meu.
Na maioria do tempo estava calada. Seus movimentos diários consistiam em: desfilar pelo lugar. Eram os meus preferidos. Mas enquanto estava sentada, balbuciava alguma música do fone, fazia uma dança discreta ou ria. Isso era comum, sempre gargalhava sozinha.
Falava comigo com certa indiferença e nem notava que eu sempre mostrava dois dentes a mais enquanto conversávamos. Parecia imune a minha presença.
No aniversário, recebeu meu parabéns como o daquele parente distante. Nas reuniões ria das minhas piadas como as pessoas de sitcom. Acatava meus pedidos como se estivesse trabalhando numa padaria: ouvia, pesava e entregava o pedido num saquinho. Só.
Durante quanto tempo? Não melembro, foram meses.
Um dia, respondeu o e-mail geral fazendo referência de uma gracinha que eu havia feito.
No outro, indiquei um vídeo. Forcei um interesse num assunto que ela sempre comentava. A partir daí, passei a ter um nome pelo menos, quase que tarde demais.
Estava sufocado e decidido (há tempos) a dar meia volta pelo cinza novamente.
Não podia mais perder tempo.
Em uma dessas conversas rotineiras, arrisquei um convite recusado no ato: tinha uma festa, que segundo ela, era tradicional de uma amiga.
Numa segunda vez, arrisquei um convite mais discreto e aparentemente inofensivo que também veio com uma recusa de pronta entrega.
Resolvi avisar sobre a minha partida, e foi nesse momento que ganhei: nome, altura, peso e um belo sorriso. Talvez se eu soubesse disso, teria antecipado a notícia.
- 72 hours left -
Apareceu no horário combinado sorrindo de um jeito diferente. Era uma mistura de "Eu não acredito" com alguma bebida. Mas seguimos como se o caminho fosse o mais natural do mundo.
Como se me conhecesse de longa data, chegou, sentou, falou e aceitou a taça que ofereci.
Parecia não se importar muito com tudo aquilo e fazia com que eu me confundisse sobre sua intenção e a compreensão da minha.
Seguimos.
Chovia, ventava, nenhum rolê dava certo.
Tinha hora exata pra voltar e mais uns 28 compromissos de domingo. Como quem não tem nada a perder desceu do carro e com uma das mãos me puxou pela nuca. Agora estávamos no mesmo barco.
- 48 hours left -
Do mesmo modo de sempre, chegou como se nada tivesse acontecido.
Como se não tívessemos conversado e rido sobre a situação e colocado enfim todos os talheres na mesa... Mas evitava contatos diretos.
- 12 hours left -
Apareceu com a camisa que eu havia elogiado algumas vezes e eu sabia que foi de propósito.
Se despediu de mim de modo convincente. "Tchauzinho, tudo de bom pra você. Boa sorte!" e saiu.
A encontrei no metrô e num impulso, a levantei pela cintura. Estava livre. Estava livre do cinza e poderia enfim correr atrás do sonho que construi por mais de 10 meses.
Me levou num bar, em que lhe entreguei um presente. Foleando página por página, entendeu os recados ocultos mas não me perguntou nada. Fez um comentário certeiro citando um caso e silenciosamente nos acertamos assim.
Me ensinou a dançar, disse que entrei para o clube "punk samba rock" e marcou no meu pescoço: 72h.
Sabíamos que não nos veríamos de novo então fomos embora pelo caminho mais longo.
Emendando todas as conversas non sense e relembrando os pontos principais da despedida, chegamos ao destino. Olhou novamente o "72h" e não falou mais nada.
Foi difícil o beijo na testa de quem é alguns centímetros maior que eu, ao contrário do abraço, que parecia ser feito sob encomenda.
- 00 hours left -
Sentamos no último banco do vagão com duas senhoras do lado.
Mesmo sendo aloprado, tentei protegê-la como pude, mas sabíamos que seria em vão.
Beijei uma das lágrimas que escorriam vazias de promessas ou intenções futuras e a vi desfilando pela última vez.
Aquela depressão pós regresso, aquela sensação de que não pertenço mais a esta cidade cinza... Numa segunda-feira, comecei.
Ela apareceu num horário incomum.
Entrou sem falar nada, demorou alguns minutos pelos cômodos até então obscuros (e desconhecidos por mim) e só então apareceu.
Num breve bom dia geral, veio em minha direção como um míssil.
"Olá, prazer. Seja bem-vindo!" numa simpatia mecânica mas aparentemente natural e um sorriso idêntico ao que conhecemos como ":)" no rosto.
Desde então tentei alguns contatos mínimos sem sucesso. Parecia ser gente boa.
Gostava de fazer com que as pessoas dessem risada, falava de assuntos que me interessavam e tinha um gosto peculiarmente parecido com o meu.
Na maioria do tempo estava calada. Seus movimentos diários consistiam em: desfilar pelo lugar. Eram os meus preferidos. Mas enquanto estava sentada, balbuciava alguma música do fone, fazia uma dança discreta ou ria. Isso era comum, sempre gargalhava sozinha.
Falava comigo com certa indiferença e nem notava que eu sempre mostrava dois dentes a mais enquanto conversávamos. Parecia imune a minha presença.
No aniversário, recebeu meu parabéns como o daquele parente distante. Nas reuniões ria das minhas piadas como as pessoas de sitcom. Acatava meus pedidos como se estivesse trabalhando numa padaria: ouvia, pesava e entregava o pedido num saquinho. Só.
Durante quanto tempo? Não melembro, foram meses.
Um dia, respondeu o e-mail geral fazendo referência de uma gracinha que eu havia feito.
No outro, indiquei um vídeo. Forcei um interesse num assunto que ela sempre comentava. A partir daí, passei a ter um nome pelo menos, quase que tarde demais.
Estava sufocado e decidido (há tempos) a dar meia volta pelo cinza novamente.
Não podia mais perder tempo.
Em uma dessas conversas rotineiras, arrisquei um convite recusado no ato: tinha uma festa, que segundo ela, era tradicional de uma amiga.
Numa segunda vez, arrisquei um convite mais discreto e aparentemente inofensivo que também veio com uma recusa de pronta entrega.
Resolvi avisar sobre a minha partida, e foi nesse momento que ganhei: nome, altura, peso e um belo sorriso. Talvez se eu soubesse disso, teria antecipado a notícia.
- 72 hours left -
Apareceu no horário combinado sorrindo de um jeito diferente. Era uma mistura de "Eu não acredito" com alguma bebida. Mas seguimos como se o caminho fosse o mais natural do mundo.
Como se me conhecesse de longa data, chegou, sentou, falou e aceitou a taça que ofereci.
Seguimos.
Chovia, ventava, nenhum rolê dava certo.
Tinha hora exata pra voltar e mais uns 28 compromissos de domingo. Como quem não tem nada a perder desceu do carro e com uma das mãos me puxou pela nuca. Agora estávamos no mesmo barco.
- 48 hours left -
Do mesmo modo de sempre, chegou como se nada tivesse acontecido.
Como se não tívessemos conversado e rido sobre a situação e colocado enfim todos os talheres na mesa... Mas evitava contatos diretos.
- 12 hours left -
Apareceu com a camisa que eu havia elogiado algumas vezes e eu sabia que foi de propósito.
Se despediu de mim de modo convincente. "Tchauzinho, tudo de bom pra você. Boa sorte!" e saiu.
A encontrei no metrô e num impulso, a levantei pela cintura. Estava livre. Estava livre do cinza e poderia enfim correr atrás do sonho que construi por mais de 10 meses.
Me levou num bar, em que lhe entreguei um presente. Foleando página por página, entendeu os recados ocultos mas não me perguntou nada. Fez um comentário certeiro citando um caso e silenciosamente nos acertamos assim.
Me ensinou a dançar, disse que entrei para o clube "punk samba rock" e marcou no meu pescoço: 72h.
Sabíamos que não nos veríamos de novo então fomos embora pelo caminho mais longo.
Emendando todas as conversas non sense e relembrando os pontos principais da despedida, chegamos ao destino. Olhou novamente o "72h" e não falou mais nada.
Foi difícil o beijo na testa de quem é alguns centímetros maior que eu, ao contrário do abraço, que parecia ser feito sob encomenda.
- 00 hours left -
Sentamos no último banco do vagão com duas senhoras do lado.
Mesmo sendo aloprado, tentei protegê-la como pude, mas sabíamos que seria em vão.
Beijei uma das lágrimas que escorriam vazias de promessas ou intenções futuras e a vi desfilando pela última vez.
28 janeiro 2014
Sobre sentir o vento, o calor e o mar.
Lembro como ontem de quando vi (há quase 10 anos), sentada na mesa do meu bar preferido, a negra mais linda que já vi.
Talvez ela não fosse necessariamente a melhor da megalópole, mas sorria de um jeito leve, bebia goles suaves e sorria... Sorria como se o mundo não importasse.
Sorria como se o agora fosse a única coisa que existisse.
Tinha a cabeça raspada, usava uma sombra verde perolada e um par de brincos de argola. Não me lembro o que vestia.
Eu queria aquilo.
Queria saber como era não se preocupar com o que mais indica a feminilidade de uma mulher, queria poder afirmar o que pra sempre foi complicado pra mim.
Mais do que isso, queria saber como era lidar com as coisas de um jeito simples. Queria saber como era não se preocupar durante o crescimento, no amanhã ou depois...
No segundo ano da faculdade decidi que um dia rasparia a cabeça também. Não que eu quisesse imitá-la, mas sempre tive a sensação de que seria algo importante. Fora dos clichês de "uma nova vida" ou coisas do tipo.
Posterguei por tempos.
Quando um agitador cultural decidiu raspar, brinquei que rasparia também.
Mas não era o momento. Eu não tinha coragem suficiente, parecia que não era a hora.
Mas não era o momento. Eu não tinha coragem suficiente, parecia que não era a hora.
Quando uma amiga raspou, combinei que se tomasse coragem...
Bem, também não era a hora. Era um momento dela.
Bem, também não era a hora. Era um momento dela.
Ela sim atribui ao corte todo um ritual que é único. Que não é meu. Não era justo.
Passaram-se meses até chegar a hora.
A hora em que eu me senti de novo completa: parte do meu todo.
A hora em que não tinha mais medo, nem receio. A hora em que o tipo de Inception "cabelo cresce/tudo se ajeita" definitivamente foi plantada como ideia.
A hora em que não era mais necessário nenhum tipo de anulação...
Me perguntaram se foi um rito. Foi.
Tinha dia específico. Tinha lugar e pessoas destinadas.
O dia em que pude celebrar tudo o que passei. O lugar aonde sempre fui bem acolhida. As mãos de quem sempre me viu como eu queria que me vissem. As mãos de quem já me amou, me odiou, levantou o copo de limpeza suspeita para o brinde e dançou comigo nos dias mais amargos e ensolarados.
Me perguntaram se o rito foi de passagem. Não.
Eu não passei. A ideia é continuar.
Eu não passei. A ideia é continuar.
Me perguntaram se "ano novo, vida nova"...
Se vida nova não tiver nada a ver com a primeira vez que senti o vento, a primeira chuveirada pós-corte, o mar que lava e tempera a pele, então não.
Se vida nova for aquela em que tenho que reconstruir minhas bases, eu passo a vez.
Se vida nova não tiver nada a ver com a primeira vez que senti o vento, a primeira chuveirada pós-corte, o mar que lava e tempera a pele, então não.
Se vida nova for aquela em que tenho que reconstruir minhas bases, eu passo a vez.
Me perguntaram se "ano novo, vida nova"...
A vida é a mesma. A gente aprende isso: a vida e as pessoas são todas as mesmas.
O que muda são as percepções que esse pacote Melitta chamado vida filtra.
05 novembro 2013
xx
- Por que eu nunca te vejo de rosa?
Segurando meu prato com vinagrete, sorri e respondi
- Porque eu nunca gostei de rosa. Minha mãe notava essa aversão e trocava por peças vermelhas.
- Mas vermelho é tão mais forte... O que é aversão?
- Aversão é quando você não gosta muito muito de uma coisa. É quando você não pode nem olhar aquilo, e sente raiva ou vontade de vomitar.
- Acho que tenho aversão à escola! - e segurou a barriga de tanto rir.
- Sim, isso é um sintoma comum de aversão! - respondi também rindo.
- E o que é sintoma?
- Sintoma é quando acontece uma coisa que te manda a "dica" sobre outra coisa. Por exemplo, dor de cabeça pode ser um sintoma de que você está com gripe, ou com fome. No meu caso sempre é fome.
- Ahhhh, entendi. Então vomitar é um sintoma da aversão que você tem com a cor rosa?
Ela era realmente muito esperta. Soltei um "Uau" e disse que estava correta.
- Posso te fazer outra pergunta?
Assenti com a boca cheia de agrião
-Hmmrum!
- Não fica aversiva comigo! Inventei agora aversiva, deu pra entender?
No meio da maior gargalhada do dia, me engasguei e disse que sim, estava bem claro.
- Por que eu nunca te vejo com suas amigas?
Eu pensei por um milésimo de segundo. Poderia explicar que as minhas amigas estavam fazendo coisas mais legais, estavam em outras festas, estavam com seus namorados ou namoradas, mas resolvi ser sincera
- Porque eu conheço meninos que conhecem muitos meninos.
- Mas não tem menina também?
- Tem sim, claro que tem.
- Mas e a minha pergunta? E as suas amigas?
- Sempre estou só, porque entre eu e elas tem a previsibilidade.
- Presibi o que?
- Essa, fica pro dever de casa, sweet!
E correu pra olhar no dicionário.
Segurando meu prato com vinagrete, sorri e respondi
- Porque eu nunca gostei de rosa. Minha mãe notava essa aversão e trocava por peças vermelhas.
- Mas vermelho é tão mais forte... O que é aversão?
- Aversão é quando você não gosta muito muito de uma coisa. É quando você não pode nem olhar aquilo, e sente raiva ou vontade de vomitar.
- Acho que tenho aversão à escola! - e segurou a barriga de tanto rir.
- Sim, isso é um sintoma comum de aversão! - respondi também rindo.
- E o que é sintoma?
- Sintoma é quando acontece uma coisa que te manda a "dica" sobre outra coisa. Por exemplo, dor de cabeça pode ser um sintoma de que você está com gripe, ou com fome. No meu caso sempre é fome.
- Ahhhh, entendi. Então vomitar é um sintoma da aversão que você tem com a cor rosa?
Ela era realmente muito esperta. Soltei um "Uau" e disse que estava correta.
- Posso te fazer outra pergunta?
Assenti com a boca cheia de agrião
-Hmmrum!
- Não fica aversiva comigo! Inventei agora aversiva, deu pra entender?
No meio da maior gargalhada do dia, me engasguei e disse que sim, estava bem claro.
- Por que eu nunca te vejo com suas amigas?
Eu pensei por um milésimo de segundo. Poderia explicar que as minhas amigas estavam fazendo coisas mais legais, estavam em outras festas, estavam com seus namorados ou namoradas, mas resolvi ser sincera
- Porque eu conheço meninos que conhecem muitos meninos.
- Mas não tem menina também?
- Tem sim, claro que tem.
- Mas e a minha pergunta? E as suas amigas?
- Sempre estou só, porque entre eu e elas tem a previsibilidade.
- Presibi o que?
- Essa, fica pro dever de casa, sweet!
E correu pra olhar no dicionário.
25 outubro 2013
(for a film)
Sempre fui o tipo de cara que faz o que tem que ser feito sem pudores.
Nunca fui do tipo que se preocupa ou deixa de fazer algo pensando no que vão achar: eu quero que se foda.
Apesar dessa minha filosofia (que sigo a risca, não há quem me faça fazer o que não quero), podem me chamar de "nice guy", vai.
Se meu humor permitir, gosto de ouvir, de discutir. Se você me der algo muito bom e divertido em troca, sou até amoroso.
Mas não estou aqui para falar de mim, muito menos de você, óbvio. Falarei dela.
Ela entrou na minha vida por meio de terceiros, mas sei que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.
Na verdade não falarei dela, falarei do jeito que ela chora.
Da primeira vez que presenciei isso, quase chorei junto.
Que saco que foi aquilo, puta que pariu.
Foi um saco, não queria vê-la assim, nunca. Estávamos os dois num café e eu fiz a merda de citar o trecho de uma música (de uma banda que gostamos pra caralho, diga-se de passagem) que caía como luva naquele diálogo.
Foi uma merda mas foi bonito também. Meu choque assustou seu choro.
Foi um choque ver tanto sentimento em poucos mililitros de água.
E era só água, sem álcool.
Alguns anos se passaram e tornei a presenciar esse fênomeno.
A festa havia acabado, todos haviam ido embora, sobramos os dois.
Dançamos, rimos, conversamos, dançamos. Não lembro agora que raio de critério estávamos aplicando na escolha da trilha sonora. Ela não lembra nem disso, então não me culpo.
A única coisa que sei é que a bendita música começou a tocar, e eu só fui entender qual era a relação disso tudo, muitos dias depois.
Eu fumava em pé, meio sem saber se queria sentar no meio daquela zona, ou se queria dançar.
Na verdade eu não comandava muito bem meus movimentos.
Ela estava de costas, com o peito no parapeito da varanda.
Era tênis, meia calça, shorts e camiseta cobrindo aquela magreza que eu já acostumei ver.
Era tênis, meia calça, shorts e camiseta cobrindo um silêncio anormal.
Era tenis, meia calça e a porra toda com o movimento concentrado num subir e descer de ombros ritmados, e que aumentavam cada vez a intensidade.
No meio das mãos, escondia parte dos excrementos que negamos por toda a vida: uma mistura nojenta de lágrimas e catarro, mas não era feio.
Eu nem sabia o que fazer ali, só me aproximei e falei do jeito que consegui pra me contar o que estava acontecendo. A resposta era silenciosa. Não conseguia nem falar, só balançava negativamente a cabeça como um "Não é nada." Não é nada meu cu.
Como já falei, é um choro tão cheio de tristeza, tão absoluto, tão maldito que me fode a vida.
Quando já não conseguia mais abafar o som, soltou alguns sons não identificados e me abraçou com uma força que quase me dobrou ao meio, quase me envergou como vara verde.
Ela ali, mergulhada naquela poça de catarro, tristeza e água salgada, e meu corpo sinalizando algum evento inesperado do momento.
Era fato, ela me abraçou tão forte, aquela tristeza era tão terrível, a música era tão fodida...
Incrível como cada um reage de um jeito em certas situações.
Eu, ali, no caso, estava passando por um momento delicado: alguém resolveu acordar sem aviso no meio daquela confusão.
Ela estava num estado, que não separava as partes dos acontecimentos.
Continuava abraçada, com o movimento único dos ombros.
Num dia qualquer ela diria "Me respeita, caralho. Respeita esse sofrimento.
Ali, parecia ignorar ou apenas relevar o fato.
Fiquei sem graça, ela só me abraçou de lado e continuou no ritual das lamúrias molhadas mas não dava. Saí pra ir no banheiro, fiz o que tinha que fazer, voltei e ela me abraçou do mesmo jeito: de novo de lado.
Essa filha da puta não falou nada. Não queria falar daquilo e logo tratou de desmaiar.
No outro dia, acordou revigorada, mas não lembrava de porra nenhuma.
Nunca fui do tipo que se preocupa ou deixa de fazer algo pensando no que vão achar: eu quero que se foda.
Apesar dessa minha filosofia (que sigo a risca, não há quem me faça fazer o que não quero), podem me chamar de "nice guy", vai.
Se meu humor permitir, gosto de ouvir, de discutir. Se você me der algo muito bom e divertido em troca, sou até amoroso.
Mas não estou aqui para falar de mim, muito menos de você, óbvio. Falarei dela.
Ela entrou na minha vida por meio de terceiros, mas sei que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.
Na verdade não falarei dela, falarei do jeito que ela chora.
Da primeira vez que presenciei isso, quase chorei junto.
Que saco que foi aquilo, puta que pariu.
Foi um saco, não queria vê-la assim, nunca. Estávamos os dois num café e eu fiz a merda de citar o trecho de uma música (de uma banda que gostamos pra caralho, diga-se de passagem) que caía como luva naquele diálogo.
Foi uma merda mas foi bonito também. Meu choque assustou seu choro.
Foi um choque ver tanto sentimento em poucos mililitros de água.
E era só água, sem álcool.
Alguns anos se passaram e tornei a presenciar esse fênomeno.
A festa havia acabado, todos haviam ido embora, sobramos os dois.
Dançamos, rimos, conversamos, dançamos. Não lembro agora que raio de critério estávamos aplicando na escolha da trilha sonora. Ela não lembra nem disso, então não me culpo.
A única coisa que sei é que a bendita música começou a tocar, e eu só fui entender qual era a relação disso tudo, muitos dias depois.
Eu fumava em pé, meio sem saber se queria sentar no meio daquela zona, ou se queria dançar.
Na verdade eu não comandava muito bem meus movimentos.
Ela estava de costas, com o peito no parapeito da varanda.
Era tênis, meia calça, shorts e camiseta cobrindo aquela magreza que eu já acostumei ver.
Era tênis, meia calça, shorts e camiseta cobrindo um silêncio anormal.
Era tenis, meia calça e a porra toda com o movimento concentrado num subir e descer de ombros ritmados, e que aumentavam cada vez a intensidade.
No meio das mãos, escondia parte dos excrementos que negamos por toda a vida: uma mistura nojenta de lágrimas e catarro, mas não era feio.
Eu nem sabia o que fazer ali, só me aproximei e falei do jeito que consegui pra me contar o que estava acontecendo. A resposta era silenciosa. Não conseguia nem falar, só balançava negativamente a cabeça como um "Não é nada." Não é nada meu cu.
Como já falei, é um choro tão cheio de tristeza, tão absoluto, tão maldito que me fode a vida.
Quando já não conseguia mais abafar o som, soltou alguns sons não identificados e me abraçou com uma força que quase me dobrou ao meio, quase me envergou como vara verde.
Ela ali, mergulhada naquela poça de catarro, tristeza e água salgada, e meu corpo sinalizando algum evento inesperado do momento.
Era fato, ela me abraçou tão forte, aquela tristeza era tão terrível, a música era tão fodida...
Incrível como cada um reage de um jeito em certas situações.
Eu, ali, no caso, estava passando por um momento delicado: alguém resolveu acordar sem aviso no meio daquela confusão.
Ela estava num estado, que não separava as partes dos acontecimentos.
Continuava abraçada, com o movimento único dos ombros.
Num dia qualquer ela diria "Me respeita, caralho. Respeita esse sofrimento.
Ali, parecia ignorar ou apenas relevar o fato.
Fiquei sem graça, ela só me abraçou de lado e continuou no ritual das lamúrias molhadas mas não dava. Saí pra ir no banheiro, fiz o que tinha que fazer, voltei e ela me abraçou do mesmo jeito: de novo de lado.
Essa filha da puta não falou nada. Não queria falar daquilo e logo tratou de desmaiar.
No outro dia, acordou revigorada, mas não lembrava de porra nenhuma.
um pra frente, dois pra trás
"Não tenho disponibilidade para cuidar dos outros. Suportar o peso da minha própria vida, carregando a solidão, já me exige muito esforço." MURAKAMI, Haruki. 1Q84 (Livro II). Rio de Janeiro: Objetiva. 2013.
obs. o título poderia ser "murakami dá mas também tira"
obs. o título poderia ser "murakami dá mas também tira"
23 outubro 2013
05 outubro 2013
10 setembro 2013
n e o
Foi numa tarde ensolarada que conheci Neomisia.
Talvez na melhor circunstância possível: um tipo de soul train feito com jazz funkeado. Um sucesso de audiência e público.
Desde a primeira menção fiquei curiosa, mas entendi claramente: era Neomisia. E para as surpresas que a vida reserva, quase minha vizinha de quebrada.
Dizia que seu nome não cabia num punhado de coisas e eu entendo bem como é disso.
Ser Kelen, mesmo numa condição ortograficamente menos complexa também trazia desgaste. Desgaste que saia dos tempos atuais com vídeos de comédia em que só existo na garrafa pet do D olly, e voltava aos de escola. "Por que não 'Kelly' como todo mundo?" eu perguntava com raiva para quem escolheu o nome. "Você não é todo mundo!" era a resposta que ele me dava. Aposto que o pai de Neomisia pensava o mesmo.
Neomisia, parece nome de musa, de deusa, amiga de Dionísio que traz Obá pra vida alheia.
Deve ser por isso que sempre inspira com suas cores e evoca a mim verbos no imperativo: vá, corra, ame...
Deve ser por isso que consegue me arrancar das entranhas gargalhadas, mesmo que por meios digitais.
Foi tal poder que completou um pedaço do vazio de um dia de junho, que me vê cabendo dentro de quem não pertenço...
"Espalhe Neomisia por aí!" conversamos um dia. Me parece extremamente necessário.
Entendo a sede e a inquietação da vida, a agonia de não caber dentro do que nos cabe, a ganância do existir por inteiro.
Não é fácil ser grande, não dá pra chegar sem se derramar, não dá pra ser pouco dentro do outro.
É difícil, mas um dia haverá espaço suficiente para pousar de braços abertos.
Continue, espalhe-se.
Talvez na melhor circunstância possível: um tipo de soul train feito com jazz funkeado. Um sucesso de audiência e público.
Desde a primeira menção fiquei curiosa, mas entendi claramente: era Neomisia. E para as surpresas que a vida reserva, quase minha vizinha de quebrada.
Dizia que seu nome não cabia num punhado de coisas e eu entendo bem como é disso.
Ser Kelen, mesmo numa condição ortograficamente menos complexa também trazia desgaste. Desgaste que saia dos tempos atuais com vídeos de comédia em que só existo na garrafa pet do D olly, e voltava aos de escola. "Por que não 'Kelly' como todo mundo?" eu perguntava com raiva para quem escolheu o nome. "Você não é todo mundo!" era a resposta que ele me dava. Aposto que o pai de Neomisia pensava o mesmo.
Neomisia, parece nome de musa, de deusa, amiga de Dionísio que traz Obá pra vida alheia.
Deve ser por isso que sempre inspira com suas cores e evoca a mim verbos no imperativo: vá, corra, ame...
Deve ser por isso que consegue me arrancar das entranhas gargalhadas, mesmo que por meios digitais.
Foi tal poder que completou um pedaço do vazio de um dia de junho, que me vê cabendo dentro de quem não pertenço...
"Espalhe Neomisia por aí!" conversamos um dia. Me parece extremamente necessário.
Entendo a sede e a inquietação da vida, a agonia de não caber dentro do que nos cabe, a ganância do existir por inteiro.
Não é fácil ser grande, não dá pra chegar sem se derramar, não dá pra ser pouco dentro do outro.
É difícil, mas um dia haverá espaço suficiente para pousar de braços abertos.
Continue, espalhe-se.
04 setembro 2013
Saudações.
Me lembro como ontem desse primeiro "Saudações", sabia?
Não precisa se desculpar, nunca.
Sei que foi um hábito que você adquiriu por força maior e não vejo a hora em que irá largá-lo.: você nunca precisou disso.
Sei que sempre falei desse entusiasmo, mas acho que tomei parte dele pra mim, sabia?
De repente tudo o que você projetava (pensando no singular) não me parece mais absurdo, consigo entender como as coisas podem ser fáceis.
É incrível como (a falta d)o peso muda a vida da gente.
Vi suas fotos: que beleza! Imagino bem qual tipo de dia você se referiu, é um bom tempo.
Estive por aí semana passada, com aquele tempo que sempre comento, sabe?
O calor colorindo as flores dos vestidos? Aquele com um solzão em que os corpos aparecem sempre com um dourado natural.
Minha passagem foi rápida, também não me recordei dessas poses, talvez porque não as tenha feito. A passagem foi ótima, os contaots também restritos.
Não havia sonho nem cobrança, talvez por isso esteja aqui com um ar tão leve.
Fique.
Não haverá nada que diga alguma coisa sobre isso tudo.
Fique bem, mas fique.
O sabor do café das minhas manhãs adquiriu algumas cores. Não tem como não me lembrar disso de copos coloridos.
Espero que não esbraveje, mas me mandar a xícara com remetente foi pedir uma resposta. E se não foi essa a intenção, bem, eu te devia uma de qualquer jeito.
Quanto ao gengibre foi fácil: não o comi, como sempre. Virou um tipo de ritual!
Me lembro como ontem desse primeiro "Saudações", sabia?
Não precisa se desculpar, nunca.
Sei que foi um hábito que você adquiriu por força maior e não vejo a hora em que irá largá-lo.: você nunca precisou disso.
Sei que sempre falei desse entusiasmo, mas acho que tomei parte dele pra mim, sabia?
De repente tudo o que você projetava (pensando no singular) não me parece mais absurdo, consigo entender como as coisas podem ser fáceis.
É incrível como (a falta d)o peso muda a vida da gente.
Vi suas fotos: que beleza! Imagino bem qual tipo de dia você se referiu, é um bom tempo.
Estive por aí semana passada, com aquele tempo que sempre comento, sabe?
O calor colorindo as flores dos vestidos? Aquele com um solzão em que os corpos aparecem sempre com um dourado natural.
Minha passagem foi rápida, também não me recordei dessas poses, talvez porque não as tenha feito. A passagem foi ótima, os contaots também restritos.
Não havia sonho nem cobrança, talvez por isso esteja aqui com um ar tão leve.
Fique.
Não haverá nada que diga alguma coisa sobre isso tudo.
Fique bem, mas fique.
O sabor do café das minhas manhãs adquiriu algumas cores. Não tem como não me lembrar disso de copos coloridos.
Espero que não esbraveje, mas me mandar a xícara com remetente foi pedir uma resposta. E se não foi essa a intenção, bem, eu te devia uma de qualquer jeito.
Quanto ao gengibre foi fácil: não o comi, como sempre. Virou um tipo de ritual!
03 setembro 2013
26 agosto 2013
28 julho 2013
command F
Tudo começou assim: a briga.
Havia brigado com a matriarca na véspera: como se encontrariam?
Ela não entende como a filha se tornou o símbolo da desor dem ganizacão, e a filha no fundo também não sabe o que (não) aconteceu durante sua formação. Não herdara nenhuma característica deste tipo, presente tanto na mãe, quanto no pai.
Ela não entende como a filha se tornou o símbolo da desor dem ganizacão, e a filha no fundo também não sabe o que (não) aconteceu durante sua formação. Não herdara nenhuma característica deste tipo, presente tanto na mãe, quanto no pai.
Fora os problemas de foco, problemas que finge ignorar, executou parte da tarefa que lhe foi designada e entregou-se aos planos que havia feito. Terminaria tudo amanhã para reparar os danos da noite anterior.
Acordou, levantou, foi até a feira e calmamente tomou o café da manhã que queria. Mordia cada parte do pastel como se fosse a última, acrescentava vagarosamente os molhos, fechava um olho pra tapar o sol até terminar todo o ritual.
Voltou para casa bem devagar.
Ao caminhar sentia o corpo por baixo de três blusas aquecer naquele sol de inverno: seu "tempo" preferido.
Ao chegar em casa, sabotou as tarefass. Seria injusto ficar ali.
Sua mãe assinaria sem dúvidas o termo de reavaliação de feto adulto. CASO fosse possível devolver à suas entranhas, 1,70m pesando 57,7kg, seria naquele dia que o faria.
Atrasada, vestiu-se e seguiu o caminho fazendo a mesma expressão: fechava ligeiramente um dos olhos e observava a janela com o outro. De tempos em tempos fechava os dois olhos, ou sorria.
Chegando ao destino, não havia nada mais que conversas triviais e a vontade de fazer nada durante um tempo.
Andaram, esquentaram, riram e choraram, ainda de rir, da quase desgraça alheia.
"Estão bem loucos." alguém falou.
E foi no meio de toda essa bagunça que apareceu caminhando meio estabanado, apressando com um olhar certeiro dentro dos milésimos de segundos mais rápidos do planeta.
"Me encontre." São apenas 15mil miniaturas para você achar o que alguém perdeu por aí.
E a mãe? O contrato está assinado, e é pra toda vida.
Ela nunca entenderá o que se passou na semana que antecedeu este final.
Um dia, sentarão na cozinha ou estarão andando pela cidade e falarão sobre isso.
Ela nunca vai entender a necessidade de estar em contato com qulquer tipo de imprevisto, ou de entregar-se ao nada vez ou outra. Ainda mais para aqueles que não sabem viver sem planejar as coisas.
"Estão bem loucos." alguém falou.
E foi no meio de toda essa bagunça que apareceu caminhando meio estabanado, apressando com um olhar certeiro dentro dos milésimos de segundos mais rápidos do planeta.
"Me encontre." São apenas 15mil miniaturas para você achar o que alguém perdeu por aí.
E a mãe? O contrato está assinado, e é pra toda vida.
Ela nunca entenderá o que se passou na semana que antecedeu este final.
Um dia, sentarão na cozinha ou estarão andando pela cidade e falarão sobre isso.
Ela nunca vai entender a necessidade de estar em contato com qulquer tipo de imprevisto, ou de entregar-se ao nada vez ou outra. Ainda mais para aqueles que não sabem viver sem planejar as coisas.
Ela nunca vai encontrar a filha num dia frio com um sol lindo, caso a filha não peça
"Me encontre!"
09 julho 2013
Saudações!
Desculpe pelo final de semana passado, como você notou, não estou mais por aí. Não avisei pois tinha medo de fazer com que mais um plano meu não desse certo.
Você sempre falou do otimismo em que eu os fazia sem medir as possibilidades de realização. Dessa vez consegui!
Cheguei por aqui num dia lindo com aquele tempo que eu sempre comento, sabe? Aquele com um solzão e temperatura amena, em que calorentos e friorentos são felizes.
Passei os dias fazendo tudo aquilo que comentei, só não consegui as poses originais em lugares clichês. Na verdade, só me lembrei disso depois de olhar as fotos. É muito difícil inovar nesses casos, mas algumas saíram incoscientemente.
Não sei se eu havia comentado contigo qual era o meu maior sonho no meio disso tudo, talvez o tenha feito em alguma enxurrada de palavras, não lembro...
Dei essa volta toda (presente nas cartas e sempre descritas como um meio de enrolar, lalalala e tudo mais) só para falar disso.
Os contatos externos estavam restritos àqueles que criaram a minha existência e aos pelegos que ajudaram de alguma forma a realizar tudo isso. Mas no exato momento em que estava lá, no topo de um dos meus sonhos, selado num presente seu, não me segurei.
Chorei como se com as lágrimas pudesse retirar todo o peso das botas (e isso seria outra carta, porque esse livro tem a sua cara), tentando esvaziar tudo que era possível, no exato instante em que você se manifesta. Coincidências, falamos disso, até que ponto elas chegam? Não sei dizer.
Quis colocar de um jeito impessoal a emoção daquele momento, talvez tenha conseguido.
Desculpe não colocar o remetente, vaguei por um tempo e esse ar é realmente diferente.
Ficarei.
Como dissemos, não haverá nada que diga alguma coisa sobre tudo isso, só te mandei essa xícara esperando que os teus dias amanheçam com sabor, e um pacote de biscoitos de gengibre pra te sacanear, claro.
01 julho 2013
foi o que me disse naquele dia em que secou todas as orquídeas que eu havia plantado.
nunca soube o trauma que passei para aprender a plantá-las. minha mãe sempre teve ótimas mãos para plantar o que é que fosse. não tem nem o primeiro grau de escolaridade concluído, mas sabe direitinho qual planta brota a partir de uma folha, por exemplo.
um dia, acordei numa dessas noites barulhentas acreditando no fim das nossas vidas.
não pensava na morte, pensava no fim do amor que um desconhecido plantou no nosso jardim. um nosso meio meu, meio seu, as vezes nosso.
observei minha mãe com seu dom mas nunca o entendi completamente. tentei a orquídea uma vez, não deu certo. um desconhecido que sempre odiou plantas, pegou a minha muda, morta e fez brotar várias dela a maior quantidade de flores que já vi numa só orquídea.
nunca entendi.
desta vez parecia que as flores iriam brotar daqueles galhos finos e incertos.
mas não faço ideia de qual seria o resultado. com certa impaciência e ceticismo, tudo foi arrancado por ali.
eu precisava ver se a planta morreria em poucos dias, eu precisava ver para saber que tenho mãos amaldiçoadas para o plantio.
"R.I.P., você e suas malditas orquídeas."
foi isso que me disse naquele dia, secou as orquídeas que eu havia plantado e fez questão de alagar junto da terra, todo o resto.
nunca soube o trauma que passei para aprender a plantá-las. minha mãe sempre teve ótimas mãos para plantar o que é que fosse. não tem nem o primeiro grau de escolaridade concluído, mas sabe direitinho qual planta brota a partir de uma folha, por exemplo.
um dia, acordei numa dessas noites barulhentas acreditando no fim das nossas vidas.
não pensava na morte, pensava no fim do amor que um desconhecido plantou no nosso jardim. um nosso meio meu, meio seu, as vezes nosso.
observei minha mãe com seu dom mas nunca o entendi completamente. tentei a orquídea uma vez, não deu certo. um desconhecido que sempre odiou plantas, pegou a minha muda, morta e fez brotar várias dela a maior quantidade de flores que já vi numa só orquídea.
nunca entendi.
desta vez parecia que as flores iriam brotar daqueles galhos finos e incertos.
mas não faço ideia de qual seria o resultado. com certa impaciência e ceticismo, tudo foi arrancado por ali.
eu precisava ver se a planta morreria em poucos dias, eu precisava ver para saber que tenho mãos amaldiçoadas para o plantio.
"R.I.P., você e suas malditas orquídeas."
foi isso que me disse naquele dia, secou as orquídeas que eu havia plantado e fez questão de alagar junto da terra, todo o resto.
15 junho 2013
eis então que um dia acordou e não sabia seu próprio nome.
habituou-se a criar tantas possibilidades que poderia muito bem negar seu nome de batismo. não seria mais pedro: seria césar, breno, igor...
não sabe dizer ao certo quando começou com isso, mas percebeu que as coisas estavam fora de controle. naquela noite ao voltar pra casa, imaginou exatas trezentas e setenta e nove possibilidades para um mesmo acontecimento. juntava peças, fatos, atos e impressões e dentro deste repertório, fazia combinações exatas.
sairia de casa sozinho, iria ao cinema sozinho, voltaria pra casa e dormiria sozinho.
iria ao cinema sozinho, encontraria um rapaz por lá com os ingressos esgotados, voltaria pra casa acompanhado e dormiria sozinho, ou acompanhado. quem sabe.
iria ao cinema acompanhado por um rapaz, voltaria pra casa sozinho e dormiria sozinho.
iria ao cinema acompanhado por uma moça, voltaria pra casa acompanhado, dormiria acompanhado e acordaria leve por ter colocado um peso no passado.
sairia de casa vagando para tomar uma cerveja, voltaria pra casa pra ver um filme qualquer no computador e dormiria.
apenas dormiria.
acordou.
olhou para o lado e não sabia se o que via era exatamente realidade ou se o seu imaginário estava mais traiçoeiro que o normal.
levantou, escovou os dentes, sentou na varanda e fumou um cigarro. a sua volta, não reconhecia a própria casa. fumando, não reconhecia seus próprios dedos. era como se uma pessoa alheia fizesse o movimento do trago. o que aconteceu?
colocou o chinelo e foi andar um pouco na rua. aos poucos foi reconhecendo o lugar. só estranhou que a cada bom dia, o vizinho dizia joão, o dono do bar césar, a da bomboniere breno e o padeiro, igor.
habituou-se a criar tantas possibilidades que poderia muito bem negar seu nome de batismo. não seria mais pedro: seria césar, breno, igor...
não sabe dizer ao certo quando começou com isso, mas percebeu que as coisas estavam fora de controle. naquela noite ao voltar pra casa, imaginou exatas trezentas e setenta e nove possibilidades para um mesmo acontecimento. juntava peças, fatos, atos e impressões e dentro deste repertório, fazia combinações exatas.
sairia de casa sozinho, iria ao cinema sozinho, voltaria pra casa e dormiria sozinho.
iria ao cinema sozinho, encontraria um rapaz por lá com os ingressos esgotados, voltaria pra casa acompanhado e dormiria sozinho, ou acompanhado. quem sabe.
iria ao cinema acompanhado por um rapaz, voltaria pra casa sozinho e dormiria sozinho.
iria ao cinema acompanhado por uma moça, voltaria pra casa acompanhado, dormiria acompanhado e acordaria leve por ter colocado um peso no passado.
sairia de casa vagando para tomar uma cerveja, voltaria pra casa pra ver um filme qualquer no computador e dormiria.
apenas dormiria.
acordou.
olhou para o lado e não sabia se o que via era exatamente realidade ou se o seu imaginário estava mais traiçoeiro que o normal.
levantou, escovou os dentes, sentou na varanda e fumou um cigarro. a sua volta, não reconhecia a própria casa. fumando, não reconhecia seus próprios dedos. era como se uma pessoa alheia fizesse o movimento do trago. o que aconteceu?
colocou o chinelo e foi andar um pouco na rua. aos poucos foi reconhecendo o lugar. só estranhou que a cada bom dia, o vizinho dizia joão, o dono do bar césar, a da bomboniere breno e o padeiro, igor.
08 junho 2013
03 junho 2013
adorava ressaltar o quão era diferente.
"nos domingos, será uma briga!" dizia.
adorava separar o que estivera junto, seja lá por quanto tempo fosse.
goiabada de queijo minas
as duas partes de um imã
feijoada de couve
os coringas do baralho
morango de chantilly
duas peças de lego
o par de meias...
tênis, meias, luvas sempre foram vendidas aos pares.
sem dúvida alguma, compraria sempre as peças unitárias e diria que "o uso conjunto se dava a partir da necessidade de manter a coerência | a conveniência". apenas por isso.
no fundo, tem seus próprios pares montados nas ideias.
no fundo, deseja comprar um par pronto de meias que sejam diferentes e se completem entre si.
no fundo...
observou a combinação e gostou, mas gostava mais de ter razão sobre como tudo era desfeito.
adorava quando convergiam, quando um era um fragmento de uma sequência e outro nota de um som.
quando um morte o outro sorte. até quando resolver parar de negar o que realmente é.
"nos domingos, será uma briga!" dizia.
adorava separar o que estivera junto, seja lá por quanto tempo fosse.
goiabada de queijo minas
as duas partes de um imã
feijoada de couve
os coringas do baralho
morango de chantilly
duas peças de lego
o par de meias...
tênis, meias, luvas sempre foram vendidas aos pares.
sem dúvida alguma, compraria sempre as peças unitárias e diria que "o uso conjunto se dava a partir da necessidade de manter a coerência | a conveniência". apenas por isso.
no fundo, tem seus próprios pares montados nas ideias.
no fundo, deseja comprar um par pronto de meias que sejam diferentes e se completem entre si.
no fundo...
observou a combinação e gostou, mas gostava mais de ter razão sobre como tudo era desfeito.
adorava quando convergiam, quando um era um fragmento de uma sequência e outro nota de um som.
quando um morte o outro sorte. até quando resolver parar de negar o que realmente é.
31 maio 2013
nunca teve o paladar para vinhos.
quando jovem, entornava o tipo "tinto suave" que na verdade era uma mistura ingrata de melado com álcool. misturava com leite condensado no ponto de ônibus, colocava na mochila e a fermentação seria ingerida na região central da cidade em que vivia.
quantos anos tinha? quatorze anos no máximo. nunca teve paladar para vinhos.
num dia desses, feriado santo diga-se de passagem, recebeu algumas ligações enquanto se recuperava na noite anterior (noite essa em que a "nata", o "soborô", os "tru" estariam reunidos falando, se atropelando de um jeito engraçado e se exaltando por pixação).
seria o reencontro efetivo de pessoas diferentemente parecidas, parecidamente diferentes, opostas, complementares. que seja, foram misturadas pelo acaso.
juntariam as conversas num charmoso bistrô da periferia. lugar que tem parte significativa na vida de cada um. o morador local, de modo rotineiro; a visita ilustre, de modo nostalgico; e por fim a visita local, em que o significado foi marcado pelo fim/começo de uma nova era há alguns anos atrás.
inverno gostoso, lugar agradável a pedida era um vinho com algum nome estranho.
dois que estavam ali discutiram rapidamente o que seria escolhido, qual era seu tipo, sua uva e o acompanhamento.
nunca teve paladar para vinhos, não entendia aqueles nomes. só sabia o que era suave e seco, quer dizer, pensava que sabia. essa foi sua primeira gafe: vinhos suaves não são necessariamente doces.
"peça um vinho doce, não suave."
guardou essa informação e acatou, mas não deixaria de provar os outros também.
lembra nitidamente como detestava cerveja e hoje em dia, consegue listar em uma mão as suas preferidas. resolveu encarar o tal do vinho, sabe-se lá o nome, a uva, a safra, o que for...
o amargor da bebida misturado ao estado em que já se encontrava, num primeiro momento pareceu uma combinação impossível. intercalava com a água sem gás vez ou outra mas foi a chegada dos queijos, caldos e afins que transformou toda a experiência.
naquela mesa havia a nostalgia de outros encontros, uma pequena muda de roupas para ser lavada naquela noite e uma quantidade grande de mágoas que não deveriam, em hipótese alguma, ser mencionadas.
tudo foi tomando um rumo agradável, as risadas, as brincadeiras. aos poucos. nenhum assunto com o terceiro grau de queimadura foi abordado. "Graças a Deus! pensou repetidas vezes.
a reunião se prolongou, atravessou avenidas, cortou pizzas, cervejas, salas...
nunca teve paladar para vinhos, mas a partir de agora, era quase um sommelier.
(até parece)
quando jovem, entornava o tipo "tinto suave" que na verdade era uma mistura ingrata de melado com álcool. misturava com leite condensado no ponto de ônibus, colocava na mochila e a fermentação seria ingerida na região central da cidade em que vivia.
quantos anos tinha? quatorze anos no máximo. nunca teve paladar para vinhos.
num dia desses, feriado santo diga-se de passagem, recebeu algumas ligações enquanto se recuperava na noite anterior (noite essa em que a "nata", o "soborô", os "tru" estariam reunidos falando, se atropelando de um jeito engraçado e se exaltando por pixação).
seria o reencontro efetivo de pessoas diferentemente parecidas, parecidamente diferentes, opostas, complementares. que seja, foram misturadas pelo acaso.
juntariam as conversas num charmoso bistrô da periferia. lugar que tem parte significativa na vida de cada um. o morador local, de modo rotineiro; a visita ilustre, de modo nostalgico; e por fim a visita local, em que o significado foi marcado pelo fim/começo de uma nova era há alguns anos atrás.
inverno gostoso, lugar agradável a pedida era um vinho com algum nome estranho.
dois que estavam ali discutiram rapidamente o que seria escolhido, qual era seu tipo, sua uva e o acompanhamento.
nunca teve paladar para vinhos, não entendia aqueles nomes. só sabia o que era suave e seco, quer dizer, pensava que sabia. essa foi sua primeira gafe: vinhos suaves não são necessariamente doces.
"peça um vinho doce, não suave."
guardou essa informação e acatou, mas não deixaria de provar os outros também.
lembra nitidamente como detestava cerveja e hoje em dia, consegue listar em uma mão as suas preferidas. resolveu encarar o tal do vinho, sabe-se lá o nome, a uva, a safra, o que for...
o amargor da bebida misturado ao estado em que já se encontrava, num primeiro momento pareceu uma combinação impossível. intercalava com a água sem gás vez ou outra mas foi a chegada dos queijos, caldos e afins que transformou toda a experiência.
naquela mesa havia a nostalgia de outros encontros, uma pequena muda de roupas para ser lavada naquela noite e uma quantidade grande de mágoas que não deveriam, em hipótese alguma, ser mencionadas.
tudo foi tomando um rumo agradável, as risadas, as brincadeiras. aos poucos. nenhum assunto com o terceiro grau de queimadura foi abordado. "Graças a Deus! pensou repetidas vezes.
a reunião se prolongou, atravessou avenidas, cortou pizzas, cervejas, salas...
nunca teve paladar para vinhos, mas a partir de agora, era quase um sommelier.
(até parece)
- tá dormindo?
- hmmm, não
- tá tudo bem?
- uhum
- você não parecia muito alegre hoje
- não é nada demais
- fala
- não liga pra isso, é coisa minha
- sério?
- sério!
- sendo coisa sua é um pouco minha também
- não necessariamente....
- mas que coisa, fala logo
- riso
- e ainda ri. você se diverte com isso né?
- menos do que eu gostaria, daydreamer
- você sabe que vou ficar te perturbando até você falar, né? daydreamer, quem vê assim...
- riso
- chega aqui mais perto então, você e seu silêncio
- hmmm, não
- tá tudo bem?
- uhum
- você não parecia muito alegre hoje
- não é nada demais
- fala
- não liga pra isso, é coisa minha
- sério?
- sério!
- sendo coisa sua é um pouco minha também
- não necessariamente....
- mas que coisa, fala logo
- riso
- e ainda ri. você se diverte com isso né?
- menos do que eu gostaria, daydreamer
- você sabe que vou ficar te perturbando até você falar, né? daydreamer, quem vê assim...
- riso
- chega aqui mais perto então, você e seu silêncio
Assinar:
Postagens (Atom)





