incômodo
Desde ontem acordou para procurar os documentos. Embora fosse o exemplo vivo de desorganização na Terra, sempre perdia as estribeiras com a mania que a mãe tem de guardar os documentos todos juntos. Não queria que questionassem sua vontade, então aproveitou que todos estavam na cozinha para procurar.
Vasculhou todos os lugares, acabou o mistério, teria que desvendar tudo com um pedido "Mãe, preciso de um documento...". Voltou para tomar banho, lembrou da sua última consulta e o achou no meio das suas coisas. Glória!
Acordou quinze minutos mais cedo desejando apenas que todos dormissem até a hora em que dobrasse a esquina. Vontade inútil. Ao acordar já ouvia o movimento doméstico. Seu pai sempre acompanhava parte do percurso, por que seria diferente hoje?
Estava de mau humor. Era uma mistura de sentimentos, queria ficar em paz, não aguentava mais satisfações, queria se equilibrar em algo que fosse só seu e odiava quando todos os desejos beiravam a ingratidão. Não era isso...
Estava de mau humor, um dia antes o pai havia relutado um pedido simples. Tentando reparar a estupidez, voltou atrás "Quer que eu vá buscar pra você?". Palavra dada e nunca esquecida, é assim que funcionava "Não precisa não. Sempre me virei sem a ajuda dos outros" era a resposta dada em todas as vezes que o amargor toma conta de si e apaga toda a gratidão que carrega sempre no peito.
Ao sair, a despedida. "Vou te levar até o ponto!" merda... "Não vou pra lá, vou tentar marcar uma consulta" e assim todo o seu plano foi arruinado. Fora até lá sem sucesso, completou a lacuna do mau humor com uma frustração e foi trabalhar.
conversa
Botaram na mesa o que estava remoendo apenas um lado do diálogo. Não sabia como explicar: Como classificara seus amigos? Não havia muito o que nomear, as coisas vão acontecendo, se desenrolando e as amizades tomando forma.
livro
Por mais que passassem os dias, meses, anos, parecia que ainda haviam muitos receios em algumas conversas. Não queria desfazer o encontro, mas também não queria que compreendesse parte da sua preocupação como um tipo de frieza. Não houve risada, apenas uma manifestação sincera "Prefiro pegar a encomenda sem atrapalhar seus afazeres."
Acreditava no que era dito "Tenho medo de que tudo isso seja visto como um pretexto." imagina.
Ele, o silêncio, volta dizendo "Pra que isso?" e a entrega foi feita da maneira mais curta. No momento da troca, palavras corridas dentro de uma intimidade construída no contato ao vivo. Assim não há estranheza ou metade de uma má interpretação. Melhor assim.
pico
O regresso, trem lotado, nas cinquenta primeiras páginas do livro consegue entender o porque da indicação. Quando o destino se aproxima, observa o pai com sua filha no colo. Estão de pé.
Ela usa um óculos retangular rosa escuro e com as mãozinhas vai acariciando o rosto do pai. Os movimentos parecem involuntários, faz um carinho, boceja, outro, coça a cabeça com as mãozinhas furadinhas, encosta a cabeça no ombro do pai. "Tá dormindo?" ele pergunta, ela fecha o olho e finge mas o movimento do sorriso sapeca a denuncia.
Quando resolve despertar, desembesta a falar. É preciso tirar os fones pra saber o que diz, fala das luzes, fala da mãe, pergunta se pode comer bolacha quando chegar em casa e solta "Pai, nunca vou namorar, nunca vou pra faculdade." ele ri "Mas por que isso?" ela esbraveja "Na faculdade as pessoas namoram, e se eu não quero namorar tenho que ficar longe da lá!" o pai começa a gargalhar, solta um "ai ai" e ela continua com sua inquietação.
Não sabe dizer o porque, não tinha nada a ver com o diálogo mas começou a segurar o choro. A estação não chegava nunca e a gravidade não teve um pingo de compaixão. Quando aquela voz anunciou a próxima estação já era tarde, as lágrimas estavam molhando as duas bochechas.
"Não quero entrar na faculdade, não quero namorar, não quero chorar quando for maior que você, pai."
lotação
A felicidade de sentar no último banco livre. Não iria dormir, a leitura que lhe arrancava um e outro sorriso bastava. Ao chegar perto de casa, aquele dilema em que todas as pessoas vão descendo e como sobram lugares vagos, você é obrigado a pular para o banco mais próximo e prosseguir a viagem sem nenhum passageiro perto. Antes seguia essa lógica, hoje pergunta "Por que?"
favor
Comunicou o acontecido "Eu havia dito que veria pra você cedo, não disse?" como era possível? "Disse HOJE, ontem não manifestou uma boa vontade..." Fecharam-se as caras.
Cresceu assim, eram cópias. Esbravejavam com as mesmas coisas, alegravam-se com as mesmas coisas, na maioria das vezes até as cobranças eram bem parecidas. Por que mudaria agora? Faça-me um favor (mas só o faça se for de bom grado).
post-it
Chegou em casa, guardou o bilhete que não era seu com todo o cuidado, pegou um post-it amarelo e escreveu
- incômodo
- dia
- conversa
- livro
- volta trem
- choro
- lotação
- favor
- bilhete
- post-it
releu a lista
- incômodo
- dia
- conversa
- livro
- trem pico
- choro
- lotação
- favor
- bilhete
- post-it
e esvaziou-se.