10 fevereiro 2011

Descalçando

Toda vez que ia comprar algo com seu pai, era a mesma situação:

- Escolha logo qual tênis você quer, rapazinho.

Sempre gostou de admirar vitrines pois inconscientemente era o meio em que poderia ter tudo o que quisesse.
Alimentando-se deste sonho, sempre escolhia o que era mais cômodo na compra, pois, todas as suas outras vontades haviam sido supridas com os quinze minutos anteriores de imaginação.
Mas, desta vez, foi diferente. Desta vez sabia que teria que se satisfazer com a escolha feita, com a realidade. Escolher um par de tênis, nunca foi tão difícil.

Pensou que poderia ficar com o primeiro: tão confortável e suas cores traziam uma segurança em todo o caminhado. Mas e aquele segundo ali? Era macio, tinha uma graça diferente mas sua forma, chegava a ser meio engraçada. O terceiro, tinha tudo a ver com ele: mas este argumento não parecia de todo convincente comparado aos anteriores.

-Vamos filho, não tenho o dia inteiro.

Ficou ali, parado por um tempo...
Se viu novamente caindo nos pensamentos de como seria o dia-a-dia caso comprasse cada um deles. Queria poder escolher um e depois com o tempo, saber que este possuia também o que os outros ofereciam de bom.
A escolha seria precisa, aquela compra não era um puro capricho: andar descalço já havia judiado de seus pés.
Sabia que não era uma escolha qualquer, desta vez estaria fora de tudo...

fora dos sonhos...

- Pai! Me leva daqui? Quero voltar outro dia.


the words that maketh murder - pj harvey